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Onde Está O Nome?

O historiador Salvador de Sousa destaca em seu livro “História da Música Evangélica no Brasil” que a memória musical de diversos artistas evangélicos não pode ser relatada em detalhes porque muitos deles simplesmente não colocaram todas as informações da gravação nos encartes dos discos (CD, LP, compacto). Não registraram data da gravação, nome dos autores, estúdio, quais músicos tocaram, enfim, informações básicas para que o ouvinte se localize, afinal, as músicas não acontecem por geração espontânea, não “aparecem” no disco; alguém as criou. Buscando as causas desse fenômeno, acabei por concluir que tal atitude se repete de diversas formas.

Descartando a possibilidade de erros por parte dos designers ou produtores que desprezam detalhes importantes nos encartes, a falta do nome do compositor de cada música de forma explícita leva-nos a deduzir que alguns intérpretes desejam se passar por compositores das músicas que cantam. Decorrente dessa omissão é possível se constatar em inúmeros sites músicas que o nome do autor não aparece, mas apenas o do intérprete; como se ele fosse também o autor. Os equívocos, então, se multiplicam nas entrevistas, nos livros, nas TVs, nas rádios que associam músicas a seus intérpretes, omitindo por completo os compositores. O mesmo ocorreu no meio secular, porém, tem sido corrigido.

Infelizmente, muitos evangélicos ainda omitem compositores e músicos sob a desculpa de que tudo é inspiração do Espírito Santo – e “se fazem de bobos”, deixando as pessoas imaginarem que foram eles que receberam de Deus as belíssimas canções que cantam. Aliás, uma atitude que admiro nos cantores seculares – há exceções – é que, durante as suas apresentações, eles apresentam os compositores e os músicos pelo nome. No meio gospel, no entanto, a ordem é dar destaque apenas ao intérprete. De preferência, a banda deve ficar bem atrás, desaparecida e encoberta. Ao assistir às filmagens, parece-me que existe uma velada orientação de que somente o intérprete deve aparecer; músicos não podem ganhar destaque.

Penso que a voz é um dos elementos da banda; não é o mais importante. Todos têm seu valor para que o conjunto apareça. Essa é uma reflexão não apenas para os intérpretes e músicos, mas também para editores de imagens e cinegrafistas. “Existem outras pessoas no palco, além do intérprete”. Eles também estão fazendo o show.

Alguns versículos deixam claro que devemos dar honra a quem merece honra. Romanos 13:7 diz: “Daí a cada um o que lhe é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem temor, temor; a quem honra, honra”. No capítulo anterior, Paulo já havia revelado que uma das formas de amar alguém é dar honra: “Amai-vos de coração uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros” (Rm. 12:10). Mas parece que os intérpretes preferem repetir o que os conterrâneos de Jesus fizeram com Ele em Nazaré: “Somente em sua terra, entre seus parentes e em sua própria casa é que um profeta não é honrado” (Mc. 6:4)

Por essas e outras razões, compositores se tornam intérpretes de suas próprias músicas, e músicos emplacam carreira solo, afinal, precisam crescer e lucrar alguma coisa pra sobreviver. Ainda precisamos aprender um bocado para alcançarmos o verdadeiro profissionalismo no meio da música gospel brasileira. Nisso os norte-americanos são campeões. Que tal imitá-los também nisso?!

Atilano Muradas é jornalista, teólogo, escritor e compositor. Possui três livros publicados, oito CDs gravados, compôs as músicas do DVD Infantil "Davi" do Diante do Trono" e recebeu o Prêmio Areté em 2004. Atilano reside em Belo Horizonte, é pastor na Igreja Batista da Lagoinha, editor-chefe do jornal Atos Hoje e professor no Centro de Treinamento Ministerial Diante do Trono (CTMDT).   Site: www.atilanomuradas.com

 

 



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